CORPOS DE ÁNGELES
Débora Savi de Souza -UFSC
Em uma conversa informal com um professor[1], ele me fez uma pergunta e uma colocação que deram vasão para que este ensaio começasse a ser pensado. Sua dúvida era o que, na realidade, vinha a ser escrita feminina e, logo em seguida, confessou seu amor pela poesia e cada vez que escrevia parecia estar parindo um filho.
Neste ensaio pretendo trabalhar a escrita feminina e mostrar que ela independe de sexo e não se restringe somente ao feminino. Comumente o feminino é relacionado ao não-masculino. Seria muito singular e ingênuo fazer esta afirmação. Vários outros fatores estão aí implicados. Quando tratamos do binômio homem-mulher lembramos o que Bourdieu fala sobre a incorporação da dominação masculina. Esta construção que se faz do corpo.
Para o autor[2], tendo apenas uma existência relacional, cada um dos dois gêneros é produto do trabalho de construção diacrítica, ao mesmo tempo teórica e prática, que é necessário a sua produção como corpo socialmente diferenciado do gênero oposto, como habitus viril, e portanto não feminino, ou feminino, e portanto não masculino. Inscrita nas coisas, a ordem masculina se inscreve também nos corpos através de injunções tácitas, implícitas nas rotinas da divisão do trabalho ou dos rituais coletivos ou privados (bastante lembrarmos, por exemplo, as condutas de marginalização impostas às mulheres com sua exclusão dos lugares masculinos).
Os homens (e as próprias mulheres) não podem senão ignorar que é a lógica da dominação que chega a impor e inculcar nas mulheres, ao mesmo título das virtudes e da moral que lhes impõem, todas as propriedades negativas que a visão dominante atribui à sua natureza, como a astúcia ou a intuição.
Em uma entrevista feita por Susana Scramin a Milton Hatoum, autor do romanceRelato de um certo Oriente (1989), e recentemente lançando seu segundo romance Dois irmãos, ele afirma que uma das perguntas mais freqüentes que lhe fazem é por que ele se utiliza de uma mulher narradora. Hatoum responde dizendo que isso tem a ver com o matriarcado manauara, na realidade, as mulheres da infância, dahistória e até da pré-história dele. Ele percebeu que uma voz feminina, uma narradora, teria mais força para contar essa história. Fala de um movimento interior, de uma sensibilidade... Seria mais verossímil, diz ele. Também há um aceno ao descentramento e à ruptura[3] que parte de uma mulher: uma Xerazade que rememora e anota tudo para depois enviar ao irmão distante. Por causa disso, Hatoum enfrenta algum preconceito como o que nos conta:
Certa vez alguém me provocou, ao afirmar que o romance não tinha sido escrito por um homem. ‘Esse texto só pode ter sido escrito por uma mulher’, ele disse. Então eu respondi. ‘Claro, como você pode perceber, só o nome do autor é masculino’. [4]
No caso de Relato de um certo Oriente é das mãos masculinas que nasce uma voz feminina para narrar o romance.
Este processo de escritura que vivo neste preciso momento em que leio para escrever e escrevo para ler. É como se a escrita tomasse vida e corpo e nos induzisse a segui-la. Para torná-la especial, com valor, necessário se faz aprimorá-la, descobrir cada nota musical dentre as linhas que vão se desenhando diante de nossos olhos. Isso no começo é assustador, mas aos poucos torna-se um ritmo sonoro e plástico. Falar de outro modo atingindo o ponto nevrálgico de uma discussão; colocar as palavras devidamente em seus lugares e lhe dar um toque nunca pensado é um trabalho paciente de auscultação e observação.
Durante a minha pesquisa observei a dificuldade de me tornar ouvida e lida, já que a história nos mostra o ledor, menino ainda, que lia enquanto as mulheres, fazendo sempre bordados, pois não poderiam ouvir o romance ociosamente, deliciavam-se e viviam a ficção. Eram já leitoras e nem ao menos se davam conta disso. Na pesquisa de Zahidé Muzart[5], ela nos mostra que a mulher escrevia e muito e que nunca deixou de escrever. Poderíamos então pensar em uma escrita independente de corpo. Isso nos reporta à história da escrita ou, mais precisamente, de onde ela surgiu.
John Noble Wilford[6] relata que os sumérios contavam com uma explicação para sua invenção da escritura mais de 5000 anos atrás. Ao parecer, um mensageiro do rei de Uruk chegou tão cansado da viagem à corte de um governante distante que foi incapaz de entregar a mensagem oral. De forma que ao rei, que era astuto, ocorreu uma solução. Pôs algo de argila e gravou as palavras de suas mensagens sobre uma tabuleta.
Os arqueólogos, historiadores e outros acadêmicos presentes em um simpósio sobre as origens da escritura, efetuado na Universidade de Pennsylvania, riem ante o absurdo de que um rei tivesse escrito uma carta cujo destinatário não sabia ler. Para eles, a escrituramais que provavelmente surgiu como um sistema simbólico de comunicação distinto e separado, como a pintura, a escultura e os relatos orais, e só, posteriormente, fundiu-se com a linguagem falada.
Tantas dúvidas ainda pairam sobre a origem da escrita e não se tem uma resposta definitiva. Por certo a escrita faz parte do ser humano, único animal a utilizá-la. Dentro douniverso da escrita cada pessoa[7] deve ter o seu próprio espaço. É o que as feministas tentam legitimar.
Durante séculos foi subtraída da mulher a liberdade de manifestar-se literariamente. Quando se confunde a escrita feminina com memória, biografia, relato, é logicamente fácil explicar. Por que a mulher costuma preferir as narrativas autobiográficas? Pelo simples motivo de viver no universo do lar e do privado e, talvez, “por encontrar nesse tipo de escrita o veículo ideal para a expressão de sua vida íntima, seus desejos, suas fantasias”[8]. Quando se pensa em buscar textos escritos por mulheres do século XIX, torna-se quase impossível esta pesquisa. Por sentir essa dificuldade, Zahidé Muzart pensou em fazer um estudo mais minucioso sobre as mulheres escritoras não só do século passado, como também parte do século XVIII. Zahidé relata no livro Escritoras brasileiras do século XIX, organizado por ela, as dificuldades enfrentadas para o seu empreendimento, pois abibliografia era pouca, os documentos e escritos perdiam-se no tempo, bibliotecas com poucos funcionários para ajudar, tendo apenas uma grande ajuda dos bibliófilos.
Hoje, saindo do forno, sob encomenda da editora Objetiva, o professor Ítalo Moriconi, da UERJ, organizou um livro[9] dos cem melhores contos do século, dentre os quais cita Clarice Lispector e Júlia Lopes de Almeida, esta última tendo um comentário elogioso de Ítalo que afirma ser uma das escritoras mais consideradas de nosso século[10].
Seguindo por este viés poderíamos perguntar: – Mas afinal, escrita tem sexo? É o que problematiza e tenta responder Lúcia Castello Branco em seu livro O que é escrita feminina?[11]. Segundo a autora, a escrita feminina não significa nem oposição nem o mesmoque escrita masculina. Ela pode muitas vezes mesclar-se a outra escrita, mas não é por isso que seja a mesma coisa[12]. Na realidade, o que a escritora tenta analisar e justificar em seu ensaio é que independente de sexo existe a escrita feminina tendo comocaracterísticas a inflexão da voz, a respiração em geral simultaneamente lenta e precipitada,no tom oralizante de sua escrita de “pequenos sentidos”, essa escrita que privilegia o som, o sussurro, o sopro, os fragores inonimáveis e o silêncio a que o real se reduz[13].
É uma discussão polêmica ainda no meio acadêmico, mas que precisei me apoiar para apresentar uma escritora Ángeles Mastretta[14] que trabalha em seus livros essa escrita feminina. Há nos seus romances este ritmo e dicção de que fala Lúcia Castello Branco. Esta respiração contida ao escrever.
Como disse, deparei-me com este “fantasma”, a escrita e ainda mais – a escrita feminina. Para entendê-la melhor decidi analisar mais de perto o corpo.
Quando falamos em corpo lembramos Kafka em Colônia Penal quando nos mostra o que é feito com o corpo e do corpo. A inscrição no corpo da vítima, a descrição do processo sobre o corpo:
O condenado é posto de bruços sobre o algodão, naturalmente nu; aqui estão, para as mãos, aqui para os pés e aqui para o pescoço, as correias para segurá-lo firme. Aqui na cabeceira da cama, onde, como eu disse, o homem apóia primeiro a cabeça, existe este pequeno tampão de feltro, que pode ser regulado com a maior facilidade, a ponto de entrar bem na boca da pessoa. Seu objetivo é impedir que ela grite ou morda a língua. Evidentemente o homem é obrigado a admitir o feltro na boca, pois caso contrário as correias do pescoço quebram na nuca[15].
É o que a sociedade nos impõe sem deixar-nos refletir sobre o que está sendo inscrito em nós.
Essa inscrição de valores que nos fazem no corpo, uma construção. Virginia Woolf[16] nos aclara esta visão quando menciona que em todos esses séculos as mulheres têm servido de espelhos dotados do mágico e delicioso poder de refletir a figura do homem com o dobro de seu tamanho natural. Por isso, diz Virginia, a insistência enfática de Napoleão e Mussolini em falar da inferioridade da mulher pois, não fosse elas inferiores, eles deixariam de engrandecer-se.
Em busca de respostas procurei desnudar este corpo na obra Arráncame la vida de Ángeles Mastretta. E é por essa inscrição no corpo que Mastretta inicia seu romance. Nas duas primeiras linhas ela diz: “Esse año pasaron muchas cosas en este país. Entre otras, Andrés y yo nos casamos”.[17] O casamento sendo a preservação do corpo feminino que veio ao mundo para gerar a vida. Ainda nas primeiras páginas a protagonista Catí tenta entender o seu corpo, menina de quinze anos, perguntando ao seu noivo Andrés, homem de mais de trinta, sobre o prazer. Não obtndo resposta dele, Catí vai aconselhar-se comuma cigana quelhe faz uma explanação crua e objetiva dizendo que o timbre é o centro e que quando ela estiver com alguém é para pensar que com o timbre pensa, ouve, olha. Nesta hora, diz a cigana, esquece que tens cabeça, braços e concentra tudo aí. Vais ver se não sentes.[18]
O entendimento do próprio corpo que no desenrolar do romance acaba por desvencilhar-se da inscrição imposta e incompreensível do poder.
Segundo Foucault, o grande fantasma é a idéia de um corpo social constituído pela universalidade das vontades. Diz ele –não é o consenso que faz surgir o corpo social, mas a materialidade do poder se exercendo sobre o próprio corpo dos indivíduos[19].
E isso faz com que Catí, pouco tempo antes de ver Andrés morto e esperar encontrar algo que a deixasse com remorsos pelo seu crime oculto e impune, tenha o reconhecimento dele quando diz que nela há muitas mulheres em uma só e que ele conheceu apenas algumas: “... sé que te caben muchas mujeres en el cuerpo y que yo sólo conocí a unas cuantas...”[20]
O romance acaba com o corpo inerte do general Andrés, um homem forte e poderoso derrotado por uma mulher, Catí, que lhe conhece as fraquezas e não aceita a sua vida de corrupções.
Me acerqué a la caja abierta y vi la cara de Andrés muerto. Quise encontrar alguna dulzura en los rasgos de su cara, algún guiño de complicidad de esos que a veces me hacía, pero le vi el gesto tieso de cuando se enojaba...[21]
Um corpo apenas, um trapo humano que deixaremos entre os vermes e a terra. Retornaremos ao pó, não o nosso ser, mas o nosso corpo que não é nosso e sim da terra.Então, de que valem tantas lutas e guerras e náuseas em tentar identificar uma escrita? É tão importante assim sabermos se foi autor ou autora? Por que não paramos para refletir que é apenas um corpo emprestado durante a nossa passagem terrena? Independe o sexo quando desnudos dessa veste que é o corpo, retornamos a uma vida mais plena, sem máscaras, sem roupas, sem sexo. Apenas o nu de nosso verdadeiro ser.
Segundo Lúcia Castello Branco o sopro é uma das características fundamentais não só da escrita feminina como também da vida. Podemos chegar à conclusão então que a escrita feminina é vida. Vida de pessoas que se deixam levar por esse sopro que nos acompanha desde os relatos bíblicos quando Deus utilizou-se desse mesmo sopro para dar vida ao ser humano.
E aquele professor que me fez pensar melhor sobre a escrita feminina espero que tenha o cuidado de uma leitura mais minuciosa assim como tantos outros que admiram alguns canônicos como Proust, Guimarães Rosa, escritores que não deixaram de ter nas suas obras as características dessa escrita.
Referências Bibliográficas:
BABEL Revista de poesia, tradução e crítica, nº 1 – janeiro abril, 2000.
BOURDIEU, Pierre. A Dominação Masculina. Trad. Maria Helena Kühner. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1999.
BRANCO, Lúcia Castello. O que é escrita feminina. São Paulo: Editora Brasiliense, 1991.
FOUCAULT, Michel. Microfísica do poder. 8. ed. Rio de Janeiro: Graal, 1989.
KAFKA, Franz. Na colônia penal. Trad. Modesto Carone. São Paulo: Paz e Terra, 1996.
MASTRETTA, Ángeles. Arráncame la vida.Barcelona: Seix Barral, 1992.
MUZART, Zahidé Lupinacci. Escritoras brasileiras do século XIX. Florianópolis: Editora Mulheres, 1999.
WOOLF, Virginia. Um teto todo seu. 2 ed. Trad. Vera Ribeiro. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1985.
Sites pesquisados:
URL: <http://www.laraza.com/arena-site/arena6/a6-10.html>.
[1] Este professor faz parte do quadro de professores da pós-graduação de literatura da UFSC. Disse que se falar sobre esse seu parir filho quando faz a poesia, desmente. Estávamos na ocasião participando do Seminário internacional Brasil 500 anos de descobertas literárias em Brasília.
[2] Ver Pierre BOURDIEU. A dominação masculina. Bertrand Brasil, p. 34-41-2.
[3]Babel Revista de poesia, tradução e crítica, nº 1 – janeiro abril, 2000 p.11.
[4] Ver Babel p. 11.
[5] Ver Zahidé Lupinacci MUZART (org.) Escritoras brasileiras do século XIX. Editora Mulheres, Florianópolis, 1999.
[6] Ver Cuando nadie leía: ¿quién comenzó a escribir? De John Noble Wilford, revista Discover no endereço http://www.laraza.com/arena-site/arena6/a6-10.html.
[7] Menciono no universo da escrita pelo fato de termos tribos que utilizam outro tipo de linguagem. A oralidade, por exemplo, e não a escrita.
[8] Ver O que é escrita feminina? p.30.
[9] Ítalo MORICONI. Os cem melhores contos brasileiros do século. Eitora Objetiva, 2000.
[10] Entrevista que deu Ítalo, segunda-feira, dia 3 de julho de 2000, ao Jô Soares.
[11] Ver Lúcia Castello BRANCO. O que é escrita feminina? Brasiliense, São Paulo, 1991.
[12]Op. Cit. p. 23.
[13]Op. Cit. p. 64.
[14] Ángeles Mastretta nasceu em Puebla, México, em 9 de outubro de 1949. Estudou jornalismo na faculdade de Ciências Políticas e Sociais da UNAM onde recebeu o título em Comunicações e posteriormente colaborou ocasionalmente em jornais e revistas como Excélsior, Unomásuno, La jornada y Proceso. Seu primeiro romance Arráncame la vida (1985), romance de minha tese, traduzido em italiano, inglês, alemão, francês, holandês e português, fez com que nesse mesmo ano Mastretta recebesse seu primeiro prêmio, o Prêmio Mazatlán. Em 1997 Mastretta recebeu o prêmio Rómulo Gallegos por Mal de amores (1996), seu segundo romance e quarto livro. Esta é a primeira vez na história do prêmio, que foi obtido por uma mulher. A obra literária de Ángeles Mastretta destaca primordialmente uma sucessiva contextualização do pensamento feminista mexicano dos anos setenta e oitenta. Mastretta escreveu também Mujeres de ojos grandes (1990), Puerto libre (1993), Mal de amores (1996), El mundo iluminado (1998), Ninguna eternidad como la mía (1999). Há um par de artigos críticos sobre as obras de Ángeles Mastretta assim como entrevistas também.
[15] Ver Franz KAFKA. Na colônia penal. Paz e Terra, p. 10, 1996.
[16] Virginia WOOLF. Um teto todo seu. Nova Fronteira, 2ª ed., p. 48, 1985. Tradução de Vera Ribeiro.
[17]Op. Cit. p. 7.
[18] Ver Arráncame la vida de Ángeles Mastretta, p. 12.
[19] Op. Cit. p. 146.
[20] Ver Arráncame la vida de Ángeles Mastretta p. 225.
[21] Op. Cit. p. 232.